Abr’Olho
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CONTRIBUIÇÕES |
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Contributos |
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| Mulher desdentada pode usar fio dental? | António Lopes | 26/05/2008 | ||
| Podres de riqueza | António Lopes | 13/11/2007 | ||
| Trilogia | António Lopes | 16/10/2007 | ||
| A lentidão como critério de produtividade | António Lopes | 10/06/2007 | ||
“Mulher desdentada pode usar fio dental?”
É esta uma das perguntas que fez Mia Couto à língua portuguesa, em 1997, a pedido do Ciberdúvidas e a propósito do acordo ortográfico, que volta a estar na ordem do dia. Pelo brilhantismo e criatividade da prosa do escritor moçambicano, quero partilhar com todos o texto que voltou a circular por e-mail. Mia Couto propõe uma interacção com a língua, que pessoalmente me encanta.
“Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: ‘aquabou’?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: ‘finanças’?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.”
António Lopes / 26 de Maio de 2008
«Podres de riqueza»
O texto abaixo está publicado no blogue Diário de um sociólogo (http://www.oficinadesociologia.blogspot.com/) da responsabilidade do meu professor de História do 3.º ano do liceu (ou 5.º ano), actual 9.º ano, numa escola em Moçambique. Chama-se Carlos Serra e pertence ao Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Moçambique).
Achei o conteúdo do texto completamente actual e pertinente relativamente à realidade portuguesa. Por isso, o transcrevo aqui:
“Muitos não gostam de ouvir a realidade, mas é verdade, há muita gente abastada e a transbordar de riqueza, mas nada aloca em prol dos outros que não o têm e Deus não gosta desta atitude” – quem afirmou isto não foi o azagaia, mas o Bispo dos Libombos, D. Dinis Sengulane, em homilia sábado passado, distrito de Massingire, província de Gaza, tendo usado a expressão “podres de riqueza”.
António Lopes
Trilogia
Alcançam-me os ouvidos músicas de Adriano Correia de Oliveira. Hoje, 16 de Outubro de 2007. O dia em que o poeta de Coimbra morreu, há 25 anos. É também o Dia Mundial da Alimentação, durante o qual ouvi e vi na televisão os avisos que lembram os malefícios dos excessos praticados à mesa das refeições da maioria dos portugueses. Pouco depois, assisti ao início da história da guerra colonial que um jornalista conta ao povo português na televisão. Quero ouvir e perceber tudo, aprender este mundo de agora e antes, mas atropelam-se-me os relatos, ideias e emoções.
As palavras musicadas de Adriano Correia de Oliveira fazem-me esquecer os recados dos excessos alimentares invocados pela televisão e lembram-me os 300 milhões de crianças que, neste nosso Mundo, diariamente adormecem à noite com fome, não resultante de situações provocadas por catástrofes naturais mas das persistentes desigualdades desenhadas pelos poderosos governantes mundiais. A cada 3,6 segundos a fome mata uma pessoa. Ocorreram várias mortes, certamente, enquanto ouvia o relato televisivo sobre os excessos na alimentação.
Depois, assisti ao início da história contada na televisão portuguesa sobre a guerra colonial e, desta feita, a voz de Adriano Correia de Oliveira surge-me do mato para me lembrar as razões porque vivo em Portugal e a existência persistente de pessoas que, aqui e ali e ontem como hoje, buscam a subjugação do outro.
De repente, esta trilogia de acontecimentos também me fez indagar sobre o mundo que a minha escola quer ensinar aos seus alunos.
António Lopes
A lentidão como critério de produtividade
Caiu-me nas mãos uma cópia de um texto do professor espanhol Vicente Romano, da Universidade de Sevilha. Gostei do título e da ideia.
”Tanta microtecnologia, medida en nanómetros, y tanta velocidad de procesamiento, medida en nanosegundos, escapan ya a la percepción humana y, por conseguiente, a la conciencia. Se empieza a redescubrir el valor de la lentitud y a reivindicar su aprendizaje. Así, por ejemplo, el escritor G. Grass susribe el aprendizaje de la lentitud como contraste al principio dominante de la aceleración. Propone introducir en todas las escuelas um curso a este respecto. La lentitud sería um criterio de productividad, una especie de marcha, que correría en contra del tiempo. Sería el aplazamiento consciente, el freno de la velocidad hasta el reposo, el aprendizaje del ocio, la productividad del ocio, como dirá Paul Lafargue. Nada seria más útil en la inundación actual de informaciones que una introducción a la reflexión sin riudos, sin la rápida sucesión de imágenes, sin accionismo, y zambullirse la aventura del silencio, y donde sólo pueden vivirse los propios ruidos internos. Se trata, claro está, de una propuesta para la que no hay tiempo de llevarla a cabo.” (excerto do texto «Educación Ciudadana y Medios de Comunicación», 2005).
António Lopes


19 19UTC Fevereiro 19UTC 2008 às 8:47
António Faria Lopes???????
19 19UTC Fevereiro 19UTC 2008 às 20:40
Sim, Caro Professor, sou eu mesmo. É um enorme prazer e uma honra “recebê-lo” neste espaço. «Não perde pela demora» pois muito brevemente escrever-lhe-ei, comop, aliás, estava planeado. Um grande abraço
António Faria Lopes
9 09UTC Outubro 09UTC 2008 às 12:42
Excelentes artigos.
Confesso que sou realmente um “olhudo”.
Para mais, como moçambicano e observador atento e empático aos problemas que me rodeiam.
Quem somos, de onde viemos, para onde vamos ?
Estas são questões fulcrais que sem preconceitos, contudo gostaria de escalpulizar e de certa forma contribuir.